Você tem um poder invejável. Quisera todo ser humano ter a dádiva de renascer. Você já se perguntou quantas vezes levantou da mansão dos mortos e voltou à vida? Já quis saber? Você já morreu tantas vezes que até perdi a conta. Eu vi você desvanecer por si só. Eu mesma te matei, várias vezes, mas você reaparece sem marcas, como um mutante que se regenera,que fagocita as armas que uso. Apareceu, fui pega de surpresa. Mas quis te ter de volta, e você viveu, e me fez viver. Porém, apesar das chances,você erra. Sempre erra, pois aquele que sangra, sente, sofre,respira,come e pensa sempre erra. E eu sou cruel,não aceito seus erros. Ou os seus, ou os meus, não há espaço para dois pecadores. Os seus erros não me interessam, e quero que erre bem longe de mim. Não quero vê-los.A minha dor em sabe-los ou desconfiar deles é muito maior do que a sua, a sua dor em ter de escondê-los.
A sua morte acontece quando eu pressinto o seu erro. Não há perdão. Devo me defender, não quero que você me fira.No entanto existe uma necessidade tão forte de você, não sei ao certo por que– se soubesse, não permitiria- que passado o tempo da distância, você retorna com o corpo intacto, como se nada lhe tivesse acontecido, e você volta pra mim, e eu deixo você entrar na minha morada fixa novamente, me invadir, me sugar todas as energias. Você também vive de mim, eu percebo. E por isso renasce. Você me usa para se recarregar. Você usa os meus instrumentos de sobrevivência para ter a vida eterna – talvez aqui eu esteja te eternizando, enquanto tento sobreviver.
Só você tem a chave da sua própria vida. Só você pode decidir quando quer morrer por definitivo. Eu não posso. Toda vez que tento te matar, você me desfere golpes poderosos, que vão me matando lentamente. Você se refaz das cinzas. Você se esquiva do destino justo. Você teria orgulho, ou talvez lisonja, quem sabe até pavor se soubesse, ao menos desconfiasse, quantas vezes nasceu e morreu, dentro de mim.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
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