sexta-feira, 5 de outubro de 2007

la strada


Ele, cineasta, capricorniano, dono de uma lente imaginativa e perspicaz, observador e crítico.
Ela, atriz, pisciana, de espírito alegre e grandes e expressivos olhos, cativante e meiga.
Este poderia ser mais um caso de um diretor que se envolve com uma atriz. Mas deve-se levar em conta que este diretor é Federico Fellini e a atriz em questão é Giulietta Masina. Quem assistir filmes como o clássico "La Strada" poderá constatar, existia uma sintonia total entre o observador e aquela que se exibe, ela se sentia totalmente à vontade diante da câmera por ele regida, e ele, por sua vez, conseguia captar todas as nuances transmitidas por ela em sua performance. Eles se complementavam. Artística e afetivamente.Eles se conheceram em 1942 e, um ano depois, em 1943, se casaram e permaneceram juntos até a morte de Fellini, em 1993. Giulietta morreu no ano seguinte.
Federico e Giulietta, criador e musa, marido e mulher, amantes e companheiros, conciliando o mundo de fantasia do criar cinematográfico, em que ela assumia a forma de todas as mulheres que ele poderia amar, diante das lentes, com a realidade de esposa e companheira doméstica, que representava a figura feminina que ele realmente amava.
Às vezes a fantasia complementa a realidade, servindo de sal, mas em momento nenhum deve tomar o seu lugar. Deve ter sido óbvio para Fellini se encantar e se apaixonar por uma figura tão doce, carismática e expressiva quanto Giulietta, assim como deve ter sido fácil para Giulietta admirar e então amar um homem de criatividade e inteligência tão distinta quanto Fellini, que ainda fez dela sua musa, homenageando-a cada vez que esta interpretava as "mulheres" do cineasta. Afinal de contas, todas estas estavam sintetizadas numa só, e nada mais natural que ele quisesse tê-la ao seu lado, ao invés de apenas no campo da imaginação.
A idealização e a vivência têm seus lugar certo para existirem.Porém, como se pode ver pelo casal referido, benditos aqueles que podem viver com alguém que torne sua vida um eterno criar.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

tratado sobre o amor

O amor humano, terreno, possível, passível de ser vivido é baseado no querer.
O querer humano é guerra, é sangue, é egoísta, é possessivo, tão vil e no entanto, tão belo, pois leva qualquer indivíduo ao limiar de suas forças, sejam essas físicas ou psicológicas, seja o seu objetivo viável ou não.
Aquele que espera que o amor seja sublime como o agir dos anjos não ama. O altruísmo nada mais é que a esperança da recompensa. O altruísmo por amor? Altruísmo? Isto não é humano. Um ser humano não tem a obrigação de ter "sentimentações" tão elevadas, pois isso é da sua natureza, e a esta ele deve ser fiel, pois tudo o que faz é no compasso do perecimento da sua própria carne.
Aquele que abre mão do seu amado por "altruísmo" ou qualquer outra vã denominação, não ama, pois se amasse não abriria mão. Aquele que ama abate ou é abatido na guerra, não há escapatória. Amor é persistência, é crença cega, é fundamentalismo. O desapego presume derrota, o perecer de um objetivo concreto por rendição.
Aquele que ama quer pra si o que lhe parece belo em meio ao feio, mesmo ele mesmo torne o resto feio, com a feiúra das suas atitudes.
O ser humano é guiado por Marte, e mesmo Vênus cede a este os seus desígnios.
Quem quer amar como os anjos, ou ser amado por um, que vá para o céu.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

das divervências d'alma

A dança dos dizeres, que drena os desejos derradeiros, disformes e desesperançosos,da donzela desolada, se desvanece com os dias, com as desgraças derramadas, as divagações dúbias, os demônios de dentro. Disposta a destruir as delícias discretas do descanso com o disfarce da doçura. O desperdício de devoção e o desgaste.Derrota.
Depois da dor, o despertar e o desafio do desapego.
Demarcados sejam nossos destinos pelas deliberações divinas.

domingo, 16 de setembro de 2007

nota de abertura

Eis o meu desjejum, depois de tanto tempo de hiato. Não vim,portanto, para falar de maldade,nem tampouco de resignação. Saí da minha reclusão, para enfim falar de esperança.Não fui acometida por inércia, e sim por reflexão, solitária,dolorosa, mas sábia.Tenho pretensões bastante ambiciosas.Usar as lágrimas que derramei nestes últimos meses para regar e semear os frutos de uma nova vida. Não me desfiz totalmente do passado, mas estou indo cada vez mais longe deste, a passos largos, a medida que estas vão cedendo.
Não ganhei um coração novo em folha, este coração que bate em meu peito é sobrevivente e testemunha de um sem-fim de dores e desengano, mas nem por isso ele deveria se recusar a bater. E já que ele cumpre sua função e me ajuda a viver, me resta desejar que não entremos mais em descompasso, pelo menos não com tanta frequência.
Eu quero sentir a minha vida como um final de tarde,quando o sol dá as caras depois de dias inteiros de chuva, deixando o céu, as calçadas e as paredes dos prédios avermelhadas. Cores vibrantes, risadas e passeios a pé pelas ruas da cidade, observando os prédios, os rostos e os ânimos e o contraste da luz solar que vai ficando alaranjada.
Dormir bem à noite, acordar de manhã cedo, rever os amigos e fazer o que gosto. Sentar num banco e rir das minhas desgraças, esticar as pernas e pensar nas alegrias ( e me preparar para novas desgraças - por que não?).
E assim sucessivamente. Não fico desapontada ou aborrecida com este ciclo. Vou tratar de fazer a diferença nas minúcias.
Eu estou viva, afinal de contas.